Dilectos leitores, em primeiro lugar aqui vai o meu grande agradecimento à Tangas pelo seu entusiástico e definitivo convite para participar neste blog (escrevo mesmo sem o “ue”, habituem-se, e não é qualquer síndrome anti-europeísta…ou quiçá…) certamente de sucesso. Bem-vindos, então, a estas Tangas Animalescas cheias de questões mas, sobretudo, de uma paixão animalescamente animal e, antes de tudo, humana.
Antes de tudo humana?, poderão perguntar os mais incautos. Sim.
Este meu primeiro post encontra um enquadramento perfeito no último texto da menina Tangas: as intersecções do mal que apresenta são, não obstante aquilatáveis em estudos recentes, perfeitamente compreensíveis e aferíveis pela nossa multissecular escola da Humanidade. Decerto que quem pontapeia um cachorrinho maltratará, em ocasião oportuna, qualquer outro ser vivo, sem quaisquer contemplações para com o ser vivo humano, seja infantil, juvenil, adulto ou sénior. Situações de violência doméstica e de maus-tratos infligidos a crianças, bem como de agressões a animais, casos referidos no texto citado pela nossa Tangas-Mor, revelam antes de tudo uma predisposição para a covardia e para a selvajaria, bem como o sórdido prazer de humilhar quem pode menos e que, por isso, é sobranceira e automaticamente caracterizado pelo agressor como inferior e digno do enxovalhamento que lhe der na realíssima veneta. O abuso, a violência e a crueldade constituem, na verdade, uma linguagem universal e que por isso não conhece barreiras nem se perde em considerandos, sendo muito pouco discriminatória dos seus objectos de interesse.
Se é certo, contudo, que rapidamente concordamos com esta perspectiva e reprovamos, zelosos de civilidade e humanismo, tais comportamentos, não é menos pertinente que continuamos alegremente a alimentar a cruel indústria do consumo animal no limpo recato do nosso lar e no apetite indefectível às nossas mesas. Estraçalhamos mais um pouco a pobre vaca enquanto afagamos carinhosamente o gatinho com o qual partilhamos o mesmo tecto. A outras mãos o trabalho sujo (como diz a canção, “alguém tem de fazê-lo”), e às nossas papilas o prazer do naco suculento na brasa, no forno, no estômago.
Tendo em vista este interessante e terrífico cenário, pergunto se seremos isentos daquele sangue, ou pior, daquele atroz sofrimento de que já temos miríades de notícias, fotografias, vídeos, reportagens e testemunhos chocantes. E é claro que esta pergunta não é para encher chouriços (porque a este ponto a metáfora será, no mínimo, desagradável), mas é de bem fraca retórica. Claro que sabemos a resposta. Mas, “orgulhosamente sós” e dotados de Razão, convivemos bem com a nossa desumana humanidade.
É verdade que várias pessoas, grupos, associações, movimentos têm denunciado esta situação e apelado às nossas delicadas (débeis?) consciências. Mas a grande novidade a este respeito é a de um jovem partido político que, no seu programa eleitoral e nos seus princípios, tem como uma das principais bandeiras a defesa da senciência dos animais, ou seja, da sua capacidade de sentir dor, prazer, stress, e a necessidade de serem por isso considerados seres sencientes e não “coisas”, forma como são enquadrados (diria que inacreditavelmente) no Código Civil. Esse partido chama-se Partido pelos Animais e pela Natureza, o PAN, e ouviremos falar mais da sua actividade, designadamente no que respeita à sua humanística defesa animal.
E nós cá vamos, assobiando para o lado, programando rodadas de bife com natas (bem passado se faz favor, que a carne vermelha enoja-me) e pizza , deleitando-nos com a modernidade da civilização que tudo nos permite, como por exemplo sermos tais alegres abutres alfabetizados. Vai uma coxinha enquanto damos umas voltas ao Proust?
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